Há uns meses, numa reunião de diretoria, ouvi uma frase que ficou girando na minha cabeça: "Com a IA, vamos finalmente conseguir fazer o trabalho de dez pessoas com três." O tom era de celebração. A sala concordou. Eu também concordei — na hora. Só depois, no carro, voltando para casa às nove da noite, percebi o que tinha concordado: que o objetivo da tecnologia mais transformadora da nossa geração era, basicamente, demitir sete pessoas e sobrecarregar três.

Não estou sendo ingênuo. Conheço planilhas, metas trimestrais e a pressão de entregar resultado para acionistas que moram do outro lado do mundo. Trabalho com isso há mais de vinte anos. Mas é justamente por conhecer de dentro que a frase me incomodou. Porque eu já vi o que acontece quando "fazer mais com menos" deixa de ser uma aspiração e vira cultura: as pessoas adoecem. Silenciosamente, quase sempre. Espetacularmente, às vezes.

Byung-Chul Han chama isso de sociedade do cansaço — um sistema onde a violência não vem de fora, mas de dentro, da própria pessoa que se cobra além do razoável. O sujeito se autoexplora. Responde e-mails às onze da noite não porque o chefe mandou, mas porque "precisa" — e nem sabe mais quem definiu essa necessidade.

Agora coloque a inteligência artificial nesse cenário.

Se IA for usada apenas para acelerar o que já existe — mais tarefas, mais entregas, mais "produtividade" —, ela não vai libertar ninguém. Vai ser mais uma camada de autoexploração. O profissional que antes levava quatro horas para produzir um relatório agora leva quarenta minutos. Maravilha. Mas o que acontece com as três horas e vinte minutos que "sobraram"? Alguém acredita que ele vai meditar, almoçar com calma ou buscar os filhos na escola? Não. Ele vai produzir mais quatro relatórios. E se sentir culpado quando não conseguir cinco.

Jung chamaria isso de inflação da persona — aquela máscara que vestimos para funcionar no mundo profissional e que, quando funciona bem demais, começa a engolir tudo que existe por trás dela. A pessoa vira o cargo. O executivo esquece que é pai. A gerente esquece que gosta de pintar. O analista esquece que tinha curiosidade por alguma coisa que não coubesse num OKR. E a IA, nesse contexto, vira um amplificador de persona: te faz parecer mais produtivo, mais completo, mais disponível — sem que ninguém pergunte a que custo.

Na minha pesquisa de doutorado na FGV, investigo políticas de desconexão digital — o direito de as pessoas não serem contactadas fora do expediente. Parece simples. É qualquer coisa menos simples. Porque desconectar não é só desligar o celular. É confrontar uma cultura que confunde presença com comprometimento, velocidade com competência, e disponibilidade permanente com lealdade.

Converso com gestores de RH que sabem que isso é um problema. Muitos têm os dados: afastamentos por burnout subindo, rotatividade alta, pesquisas de clima com números preocupantes. Mas a solução que encontram é, quase sempre, cosmética: um aplicativo de meditação no pacote de benefícios, uma palestra de mindfulness na SIPAT, um post bonito no Setembro Amarelo. Tratar o sintoma sem tocar na causa é confortável. Mexer na cultura é outra coisa.

É aí que a IA poderia fazer algo diferente.

Imagine usar inteligência artificial não para produzir mais, mas para proteger tempo. Ferramentas que bloqueiem automaticamente comunicações fora do expediente. Sistemas que identifiquem padrões de sobrecarga antes que virem afastamento. Análises que mostrem, com dados, que a equipe que descansa performa melhor do que a que faz hora extra crônica. Nada disso é ficção científica. A tecnologia existe. O que falta é intenção.

E intenção é uma questão de liderança, não de TI.

Estudo e pratico IA todos os dias. Uso para automatizar o que é mecânico, para pensar melhor sobre o que é complexo, para ganhar tempo que reinvisto em coisas que importam. Mas faço isso com uma convicção que não é técnica — é filosófica: tecnologia que não melhora a vida das pessoas é só barulho sofisticado. E "melhorar a vida" não é sinônimo de "aumentar output". É, muitas vezes, o oposto: é permitir que as pessoas parem.

Sei que essa é uma posição incômoda para quem vive de resultado trimestral. Mas a conta chega. Chega nos afastamentos, no turnover, na perda de gente boa que simplesmente cansou. E quando chega, é sempre mais cara do que teria sido prevenir.

O que fazer com as otimizações do algoritmo? Não sei. Mas não queria deixar pra ele decidir. Quem decide deve estar vivo, gostar da vida — não otimizá-la.